Celebração aos Bankisi Nzaazi e Nvuunji revitaliza tradições bantu no Brasil

A kizoomba (festa) foi aberta oficialmente às 22h00 presidida e conduzida pelo Taata Nganga Nkisi Katuvanjesi – Walmir Damasceno, que autorizou ao Taata Kisaneji – Tiago Pixote Oliveira, de Katende, de Xerém, Duque de Caxias, Rio de Janeiro, e Njimbidi do Nzo Tumbansi, auxiliado por Taata Kamukeenge Kialundi, o pequeno Alex Damasceno, de Kongolo, e Oziel de Nkosi, para o inicio do toque das Jingoma (Atabaques sagrado), e aproveitou a oportunidade, como filho-de-santo, para retransmitir a todos os cumprimentos e a saudação da Néngwa kwa Nkisi Lembaamuxi, herdeira e sucessora do Unzó Tumbenci de Maria Neném (casa matriz, de Salvador).

Representantes de Comunidades Tradicionais de Povos de Terreiros das Matrizes Afro Bantu e de outros grupos étnicos, a exemplo de lideranças como: Néngwa Yakunan – mãe Janaina de Samba Kalunga, acompanhada de comitiva integrada por Taata Oni, Sergio Luiz, de Nkosi; Taata Kivonda Lulembamu, Carlos Magno; e a jovem Karamuita, Karina do Espirito Santo, de Karamose, e outros, da Nzo Jindanji Lunda Kióko, de Belo Horizonte (MG); Taata Nzazi Ankembu – Ricardo Bonaparte, e Taata Nzazi Lemim, de Carapicuíba, região metropolitana oeste da Grande São Paulo; ìyà Ofélia de Iansã, do bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo; babá Marcos d`Ayrá e sua esposa Mariene Silva, que tem seu Terreiro na avenida Luiz Superti, Jardim Guanabara, zona sul de São Paulo; Mam`etu Kiangana, Regiane de Katende e filhos, do Inzo Jindanji Katende Ye Ndanda-Nlunda, do Jardim da Ressaca, em Embu das Artes, região metropolitana oeste paulistana; Taata Kwa Nkisi Mutadiamy – professor Mauricio Ferreira dos Santos, vice-presidente do Ilabantu e sacerdote afro do Nzo Mwana Nzaambi Mutaloombo (SP); Taata Kwa Nkisi Leemba Funkê, engenheiro Nivaldo Alckmin, de Guarulhos; Mam`etu Mona Diamasimbe – Lourdes Batista, de Ndanda-Nlunda; Taata Lutambanji, de Nkosi, de Sumaré, SP, e Talasiminibô; mãe Pará, de Ndanda-Nlunda, da cidade de Limeira, SP, acompanhada de vários filhos e filhas de santo, entre outros compareceu à celebração e foi envolvida nas forças trazidas pela ancestralidade que renovou a todos e reforçou os laços de eterna cooperação que nos envolve.

Participaram ainda representantes de movimentos sociais da população negra no estado de São Paulo, como Daniel Koteban, percussionista do Ballet Afro Koteban; o ativista do movimento negro paulista, João Bosco, representando o Instituto Luiz Gama, de São Paulo; a fotografa e militante do movimento negro brasileiro, Lucia Guedes; a professora Lídia Lopes Ozório, da Universidade Federal de Itajubá, sul do estado de Minas Gerais.

O encontro propiciou a reflexão sobre a importância da tradição religiosa Bantu no atual contexto das comunidades afro-brasileiras, especialmente quando as forças do preconceito religioso têm malbaratado e minado nossos Sagrados Cultos às tradições originárias de África, por meio de verdadeira deculturação que pretende que todos estejam enquadrados nos moldes da religiosidade judaico-cristã.

A cerimônia, uma das mais brilhantes do Terreiro, foi coroada de surpresas, a exemplo da presença de Kitembu (Tempo), um dos nkisi mais reverenciados pelos angoleiros, incorporado pela Néngwa kwa Nkisi Yakunan – Janaina do Espirito Santo, de Samba Kalunga, sacerdotisa do Inzo Jindanji Lunda Kióko, e complementada com a presença dos Bankisi Nzaazi, incorporado pelo Taata Nzaazi Ankembu – Ricardo Bonaparte e pelos Maganza Kizamboranji – Arthur de Souza Brito e Kiame`Nsu – Patrícia Belitato, conhecida por Branca. Neste momento, o publico vibrou com a presença no barracão do nkisi Karamose, incorporada pela Néngwa kwa Nkisi Karamuita – Karina do Espirito Santo Rocha, do Inzo Jindanji Lunda Kióko, da capital mineira de Belo Horizonte.

Ao apresentar o nkisi Karamose no Nzo Tumbansi, Taata Nganga Nkisi Katuvanjesi esclareceu que esta entidade, Karamose, incorporada por Karamuita, é sem sombra de dúvida uma raridade no Brasil e que até em bem pouco tempo tinha a sua veracidade questionada por parte de alguns praticantes do candomblé angola, dada a falta de conhecimento histórico e vivencia dos saberes ancestrais e tradicionais. Eu mesmo estava confuso, disse o Sacerdote.

Contudo, procurei tirar minhas dúvidas do passado e tive a humildade e a coragem de mostrar ao Brasil e ao mundo um depoimento do saudoso eminente expoente do candomblé congo-angola, Taata Kanduandemu, Esmeraldo Emetério de Santana, conhecido carinhosamente por “seu” Benzinho, que no auge dos seus quase cem anos, lúcido e munido de saber inquestionável, declarou na década de 1980 que “Karamose é a Obá do ketu e Kuinganga é Euá”, daí, prosseguiu Katuvanjesi, caem por terra os discursos descabidos daqueles que se arvora em contar histórias sem aos menos conhecer candomblé das matrizes bantu, e muito menos Bankisi, desconhecendo alguns Bankisi cultuados no Brasil e não popularizados, se nunca fizeram o caminho de volta a África! Os “papagaios de piratas” são terríveis, e tentam a todo custo descontruir histórias e macular imagens, causando prejuízos danosos à tradição e ao patrimônio cultural afro brasileiro, sentenciou Katuvanjesi.

O nkisi Karamose dançou com toda sua maestria e apresentava gestos que impressionava a todos com a sua dança sagrada, empolgando a plateia, que de pé, vibrava e reverenciava a deusa. Ao som dos tambores sagrados do Terreiro e os cânticos melódicos entoados com muita sabedoria, determinação e presteza de Taata Oni, Sérgio Luiz, de Nkosi; e Taata Njimbidi Kisaneji, Tiago Pixote Nascimento, de Katende, e outros não menos importantes. Em seguida, Taata Katuvanjesi informou ao público presente que a Makota Maza Dia Nzaambi – Jucimara Souza da Silva, de Samba Kalunga, em virtude de seu aniversário de iniciação e reafricanização no candomblé congo-angola, encontrava-se cumprindo obrigações tradicionais.

Ao final da celebração, quase ao raiar do domingo, dia 14, a todos foram servidos o com delicioso Caruru votivo de Nzaazi e Nvuunji, acompanhado de xinxim de galinha, vatapá, e outras iguarias da culinária afro-baiana.

fotos: Lucia Guedes

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