Internet como espaço de disputa

A internet atualmente, se torna um dos principais espaços onde os terreiros confrontam suas narrativas

*Taata Nkisi Katuvanjesi – Walmir Damasceno

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A internet é também o espaço no qual os discursos reivindicam suas legitimidades. Nesta tentativa o conflito se instaura invariavelmente, pois, nesse espaço a contestação feita por outros discursos que também se pretendem legítimos disputam sequiosos o lugar ao sol das narrativas.

O candomblé como um processo cultural não é isento das querelas cujo o objetivo é a tentativa da construção de pureza, autenticidade e legitimidade ao que todos os terreiros buscam. Cada qual se pretende o mais fiel aos cultos originais de África e, quase sempre tal pretensão é inventada.

As formulações de tais discursos são eivadas de fatores externos ao candomblé, fatores de ordem sócio-política, econômicas e psico- sociais. Um exemplo é o do “zelador” de terreiro que motivado pela disputa em um mercado religioso, passa a questionar a autenticidade de um rival, com o fim de deslegitimar seus ritos e, por conseguinte, eliminar da disputa dentro desse mercado um suposto concorrente. Em uma sociedade pautada pelo consumo, a religião também se torna moeda de troca e como tal, passa a ser manipulada de forma análoga ao capital.

Aparentemente nada de errado há nesta condição, pois espelha a democracia, cujo um dos pilares é o direito da livre expressão e concorrência. No entanto, esconde um processo mais amplo que é o combate das macro- narrativas. Ou seja, todo o suporte que garante a visão de mundo dominante, na qual se encontra inclusive o conceito de democracia foi construída sobre o silenciamento de uma outra visão de mundo na qual se encontra o candomblé. Em outras palavras, no processo de colonização dos corpos e mentes se distorce as raízes culturais de um povo para fazê-la operar dentro da lógica do colonizador.

Assim, dentro de um território divide-se para dominar. Lição antiga. A quem tem beneficiado as disputas identitárias presentes nas religiões de matriz africana no Brasil, e o que se disputa afinal. A resposta esta presente quando se observa o comportamento das instituições do Estado, quando tais instituições oferecem o seu apoio ao terreiros, segundo objetivos políticos presentes nas intenções dos operadores de tais instituições, vai junto uma cartilha de como tal terreiro deve se comportar, o contrato é tácito.

Nos acordos, sempre há uma vantagem e, consequentemente um prejuízo para um dos lados. Para os terreiros o prejuízo é a disputa e enfraquecimento solidário com outros terreiros que também buscam os favores das classes dominantes presentes nas instituições do Estado. Esse enfraquecimento provoca a vulnerabilidade dentro das atuações em disputas politicas frente aos grupos dominantes, a vulnerabilidade dos ataques de grupos neopentecostais e, de forma mais mesquinha, aos ataques e acusações no ambiente virtual entre “Pais e Mães de santo”.

*Taata Nkisi Katuvanjesi – Walmir Damasceno, é dirigente tradicional do Nzo Tumbansi Tua Nzaambi Ngana Kavungu, coordenador nacional do ILABANTU

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