Perdoai as nossas ofensas . . .

intolerancia-religiosa

Seja na mesa do bar ou no almoço de família, sempre tem algum portador da máxima que encerra as mais acaloradas discussões, sentencia-se: “política e religião não se discute”. Se os ânimos se acalmam, não necessariamente se finda a intolerância. E mal velado não é menos prejudicial. Não conversar é manter posições, muitas vezes de preconceito e exclusão.

Na última terça-feira, dia 21 de janeiro, foi o dia nacional de combate a intolerância religiosa, uma data que, me parece, deveria ganhar destaque em tempos como esses. Refiro-me a tempos em que os donos dos morros, convertidos, fazem exílio ao participantes de religiões de matriz africana. Roupa branca no varal é alvo. Ou deixa ou desce (Traficantes proíbem candomblé e até roupa branca em favelas).

Tempos em que sob o disfarce de proteção da vida invade-se locais sagrados e se profana terra com ódio contra quem ainda tem recente os chicotes da colonização.

Falo ainda de tempos em que a laicidade do estado corre sobre linha tênue, em que a pretensão de certos senhores, abriga-se no desejo de impor goela a baixo os seus valores morais e espirituais. Veja-se o Rio de Janeiro, tem-se agora, um “Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais” (Cabral aprova lei da moral e dos bons costumes), lei de quem pra quem? Há de se perguntar!

Bem, o fenômeno é histórico, e não podia ser de outro modo. O processo de colonização desde a educação “ofertada” pelos jesuítas já ensinava, já catequizava: a fé do índio não é boa, depois foi a vez do negro. Tudo coisa do demônio. Como apontam as estatísticas (veja-se o censo de 2010, por exemplo), católicos decrescem, evangélicos crescem, mas a situação de opressão hegemônica não muda tanto assim. Às minorias cabe o medo, os recantos escuros.

Foi esta a nossa mácula: não discutir religião e política. Que agora se mistura e assusta, por tornar o Estado instrumento de legitimidade na opressão de minorias religiosas, que creem diferente do desejado por alguns. E não precisa acreditar em uma divindade diferente da minha, mas acreditar e lutar por qualquer coisa diferente da vontade do meu deus já é o suficiente. E assim vai se caminhando, violando direitos humanos e atrasando o progresso de construção da dignidade e respeito. A intolerância religiosa vai se tornando intolerância civil. Que tempos…

Nietzsche possui um aforismo que discute a respeito da origem da lógica na cabeça humana, contudo seu caráter de aforismo sempre me permitiu vê-lo ligado a outra tradução e ligação, a tendência humana de cristalização das coisas e da realidade que sob a ordem da lógica construí inverdades. Diz ele que “Em e para si todo grau elevado de cautela no inferir, toda tendência cética, já são um grande perigo para a vida.

Nenhum ser vivo teria sido conservado se a tendência oposta – preferir afirmar a suspender o juízo, preferir errar e criar ficções a esperar, preferir concordar a negar, preferir julgar a ser justo – não tivesse sido cultivado com extraordinário vigor.”

Aparentemente algumas pessoas ainda veem na tolerância um perigo à sobrevivência da própria fé, se impossibilitam de enxergar em fluxo, sua lógica as mantêm cegas a singularidades da manifestação do divino e a base da sua crença está nas preconcepções das quais não pode se afastar.

Torçamos por tempos diferentes, uma vez que como diz Lenine

“Foi pra diferenciar
Que deus criou a diferença
Que irá nos aproximar
Intuir o que ele pensa
Se cada ser é só um
E cada um com sua crença
Tudo é raro, nada é comum
Diversidade é a sentença.”

Johny Brito

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