Por uma politização das Comunidades de Terreiro

Taata Kambandu Ngelwami – Ênio Sales, de Nkosi

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A sociedade brasileira é amplamente pautada pelo racismo como elemento assinalador dos lugares sociais ocupados pelos indivíduos na esfera da produção material e simbólica. Tais lugares podem ser simplificados em termos de privilégio e subalternidade. Vemos com frequência de forma sensível, imediata, a associação da população negra a um dos pólos opositivos que estruturam a percepção social: bem/mal; feio/bonito; bom/ruim…

Simbolicamente houve sempre uma preocupação enraizada no processo de escravização de ocultar, minimizar e inocular os elementos constituidores da diferença cultural dos povos africanos. Quando chegavam ao Brasil, seus nomes eram imediatamente substituídos a ferro e fogo por nomes originários da metrópole, tornavam-se os Silvas; Santos etc. Nesse processo também foi construído o repúdio a história dos povos africanos, vista como um risco para a visão de mundo dominante centrada nas metrópoles colonialistas. A religião, sobretudo, foi duramente perseguida pelos sujeitos sociais que ocupavam os lugares decisórios e de privilégios dessa sociedade. Tal fenômeno se arrasta ainda hoje.

Evidentemente a população negra sempre manifestou formas de resistência tanto à opressão física quanto simbólica. Nossos elementos culturais estiveram sempre presentes em nossa percepção de mundo, tenha sido através da duplicidade sincrética, no caso da religião, em que se associou santos católicos às divindades do panteão dos Bankisi, Voduns ou Orixás, ou através do empoderamento direto da manifestação litúrgicas ligadas diretamente à história dos povos africanos. É o caso da re-africanização dos Terreiros de Candomblé.

Neste prisma, ações como as que ocorreram no Inzo Tumbansi no dia 8 de março, se mostram bastantes válidas para a criação de mecanismos para intensificação do combate ao racismo. Na ocasião, está comunidade de Terreiro propôs uma discussão sobre a Lei 10. 639/03, que obriga a inserção no currículo escolar da História da África e da cultura afro-brasileira, no ensino público e particular. A discussão girou em torno da incipiência como é tratado o tema, tanto pelas autoridades públicas, quanto por professores deficitários de uma formação específica para trabalhar adequadamente o assunto.

O que se mostra interessante, neste caso, é a correlação de forças entre autoridade e adeptos do candomblé, segmento religioso, com militantes, professores universitários e autoridades do Movimento Negro, segmento político ativista. Tal composição demonstra tanto o amadurecimento das formas de resistência da população negra, quanto o grau de inalterabilidade do racismo brasileiro.

Certamente ações como essas se tornaram cada vez mais necessárias como forma de exigências de políticas públicas específicas para a população negra. E certamente contribuirão para os processos de descolonização de nossas especificidades através dos processos de politização dos Terreiros na formação de sujeitos capazes de reivindicações estratégicas. Ao mesmo tempo que contribuirá com os quadros de militantes negros tradicionais no empoderamento de matrizes culturais da população negra diaspórica.

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