Tradição espiritual… Não se escreve. Vive-se!

* Júlia Mbumba (Mona Kisola dya Nzambi)

Em pleno ano de 2020, século XXI, em conversa com um ex-colega e amigo, actualmente, pastor evangélico, ouvi algo como: Vocês questionam muito e a ciência não foi criada para isso. A ciência não serve para ser questionada. Nada nos pode fazer questionar o Livro Sagrado que é a Bíblia.

A minha questão fundamenta-se no seguinte:

Porquê que a Bíblia é um Livro Sagrado e sem falhas, se ele até foi escrito por homens, como nós? A Bíblia, não foi assinada por Deus e muito menos por Jesus Cristo.

Para o meu amigo, a justificação reside no facto de que a Bíblia é um Livro Sagrado, porque senão já teria sido extinto pelos próprios homens.

Confesso-vos que nunca pensei em escrever sobre a minha tradição espiritual até ter sido convidada por alguém a quem devo algum respeito e consideração, por isso aqui estou.

Que fique claro que não tenho qualquer intenção de achincalhar quem quer que seja muito menos apontar o dedo a outrem; a ideia, tal como faço com todas as outras facetas da minha identidade cultural, é despertar mentes abertas para uma reflexão tão séria quanto possível para posterior troca de ideias que não, desmistificar comigo os mistérios da minha convicta prisão espiritual, uma barreira iniciada aquando da iniciação da desestruturação da minha cultura, lá atrás quando o senhor colono decidiu dilacerá-la… Passou pelos meus ancestrais, situação que em mim se reflete até aos dias de hoje., pois, a minha identidade cultural, liberdade de crença e cidadania, simplesmente foram e ficaram adulteradas, lamentavelmente.

Continuo, pois, com muito receio em escrever sobre tal assunto, porque confesso que por vontade própria não o faria nunca, já que a tradição espiritual é uma forma de estar na sociedade, na vida e acima de tudo, no seio da família, que se manifesta e se exprime!

Mas o que se faz quando soldados, são ordenados pelo superior hierárquico para o cumprimento de quaisquer missão? Simplesmente Cumprem!

Então… Estou às ordens do meu superior e, com a vossa licença, deixem-me aqui esboçar alguma coisa…

Na casa dos 30… Bem cá para cima…. Quando até mais de metade do caminho para o meio século já foi percorrido, para mim espiritualidade foi trazer para o meu coração, o que pertence ao coração e a Pátria alheia. Sem sequer questionar como tinha aqui chegado.

Como sabemos, chegamos ao mundo através da união de um homem e de uma mulher tornando-se esta última nossa mãe que nos gera e cria no seu interior e quando chega a hora H, põe-nos no mundo a mercê da Sagrada Natureza, maior parte das vezes ignorada por nós.

Há cerca de 3 anos decidi trabalhar apenas em jornalismo cultural, de maneiras a que dentro da minha área possa defender a minha própria identidade cultural, mas tenho-me apercebido que alguma coisa falha quando por um lado defendo a cultura e por outro, confesso hereditariedades e tradição espiritual alheias.

Aí começou a minha busca ao conhecimento do que é estar bem comigo mesma, dentro dos padrões daquilo que defendo tanto a nível pessoal quanto profissional e apercebi-me que de alguma maneira preciso de me (re) encontrar. Há muito que faço um exercício, que é a comunicação com o meu “NZAMBI”, sem qualquer interferência e também sem precisar de intermediários. Afinal, todos somos seres especiais e cada um à sua maneira.

Aceites por esse “NZAMBI”, OLORUM, DEUS, JEOVÁ, chamado, pregado e visto de maneiras distintas. Pedi direcção sobre o que devia seguir e… Adivinhem quem apareceu nos meus sonhos e me disse: “Segue o que de facto és”: Aquele Homem que foi sempre o homem mais importante, mais sábio, mais credível para mim, por quem sou apaixonada desde que nasci, e por quem todos os dias, especialmente nos mais difíceis, chamo por Ele e sinto o Seu braço aqui no meu ombro, a acolher-me, a ouvir-me e a orientar-me.

Pois sim, aquele que para muitos está morto, para mim e para aquilo que seja a minha tradição espiritual, está vivo e sempre comigo, não O vejo mas sinto-O porque cuida de mim e continua o mesmo protector de sempre.

Nele eu confio e acredito! É o elo que considero uma mensagem vinda do alto e então decidi sim seguir a espiritualidade baseada na força da natureza.

Hoje, e a cada dia que passa sei um pouco mais sobre a minha tradição espiritual, estudo-a e vivo bem com ela. Vivo aquela paz de que sempre precisei.

E hoje pergunto: Como pode um povo com uma tradição espiritual tão rica se negar viver espiritualmente preso a aquilo que para si continua a ser desconhecido e ainda por cima, a negar o que é seu por direito ancestral?!

Se já sei escrever sobre espiritualidade?
Não sei… Digam-me vocês se fazem algum sentido esse texto…

* Júlia Mbumba, Mona Kisola Dya Nzambi, Mona kwa Wambulu N`Sema (Bamburucema), Mona Nkisi Nzo Tumbansi, é jornalista, atuou em emissoras de TV em Angola, tendo trabalhado como repórter da TPA, ZYMBO, fundadora da Revista IXIETU; articulista do ILABANTU – Nzo Tumbansi.

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  1. 13th maio 2020 | Rosa Samiana says:
    Gosto do texto. Muito forte Com certeza que, quem ler vai se inspirar e quer saber mais sobre a tradição espiritual. Parabéns Júlia Mbumba
  2. 21st julho 2020 | Telma Melo says:
    Texto enriquecedor... Precisamos deixar de viver no alheio! Os “libertamos” das correntes que eram visíveis e palpáveis, mas não sabíamos que continuaríamos acorrentados por uma ainda mais forte, que nós mesmos aceitamos de bom grado.

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