Soberano do povo Chokwe designa Tata Katuvanjesi representante no Brasil e América Latina

Mariana Bracks Fonseca

Mwene Mwachisenge-wa-Tembo, Soberano do Povo Chokwe, sediado na povoação do Sweja, cidade de Saurimo, província da Lunda Sul, Angola, designou publicamente durante sua participação em diálogo na TV Tumbansi, transmitido pelas mídias digitais YouTube e Facebook, Tata Nkisi Katuvanjesi como Representante das Comunidades dos descendentes dos Tchokwe no Brasil e América Latina. A cerimônia de posse será durante a realização das festividades do Ano Novo Tchokwe que terá lugar na sede do Reino, de 27 de agosto a 2 de setembro deste ano, oportunidade em que acontecerá grande cerimônia tradicional e rituais da tradição.
Trata-se de um acontecimento primoroso! Uma ponte construída pelos ancestrais para unir dois de seus maiores guardiões, separados pelo oceano.

Sabemos que muitas pessoas da região da Lunda-Chokwe vieram para o Brasil durante séculos, sobretudo para região de Minas Gerais, onde trabalharam e ensinaram as tecnologias da metalurgia que possibilitou a exploração econômica das minas. Os Lunda contribuíram fortemente para a construção da cultura afro-brasileira, que se evidencia nas artes em madeira, nos pentes, na cestaria, na arte de trançar os cabelos, na ciência divinatória, no vocabulário e de diversas outras formas que ainda não receberam a devida atenção dos pesquisadores.
A concepção de mundo Chokwe- somada a de outros povos centro-africanos- foi mantida viva e atuante no Brasil através do Candomblé Angola. Agora Tata Nkisi Katuvanjesi, herdeiro e guardião destes saberes, retorna à África, terra natal das Mahamba, para fortalecer a espiritualidade ancestral.

Tata Katuvanjesi vem realizando um trabalho de grande importância não apenas na manutenção das tradições centro-africanas no Brasil, como também no “retorno para casa” de fundamentos espirituais. Na Ilha de Mussulo, em Luanda, ergue-se o terreiro Inzo Tumbansi, para devolver aos filhos de Angola o que séculos de colonialismo levou. Os Nkisi, levados para o Brasil, hoje retornam à África-mãe e ajudam a orientar a juventude angolana para os valores ancestrais africanos. A Autoridade Tradicional Afro-Brasileira também se destaca na articulação com várias rainhas, reis e chefes africanos que reconhecem sua sabedoria e o designam como representante do povo Bantu nas Américas. Esse é um momento de imensa alegria para os africanos em diáspora. A união dessas duas lideranças, Mwene Mwachisenge-Wa-Tembo e Tata Nkisi Katuvanjesi, alicerça o caminho para a valorização da espiritualidade ancestral africana.

Texto: Mariana Bracks Fonseca, Doutora em História pela USP, professora de História da África na Universidade Federal de Sergipe, membro do Inzo Tumbansi – ILABANTU




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