Francia Márquez, regida por Uambulu N`Sena (Bamburucema) e Mutaloombô (Oya e Oxóssi), eleita Vice Presidenta da Colômbia

Meu diálogo com Francia Márquez, exatamente Francia Elena Márquez Mina, a advogada, ambientalista e ativista social afro colombiana, se iniciou há cerca de dois anos, quando me procurou para orientação espiritual, não imaginava que se tratava de uma mulher preta considerada uma das mais influentes do mundo. Ainda cumprindo agenda institucional em Angola, sou convocado por seu Coordenador de campanha, o advogado Cristian Kevin Gómez Paz.

Tudo acertado, dia 20 de maio embarco em um voo comercial com origem no Aeroporto Internacional de São Paulo Guarulhos para Aeroporto de Eldorado, Bogotá, com conexão em Santiago, Chile. Ansioso para chegar ao destino, dia 21 desembarco em uma Bogotá com um tumultuado trânsito até chegar ao Double Hilton Hotel Bogotá . Capital extensa e de altitude elevada da Colômbia. Situada no noroeste da América do Sul, a República da Colômbia é o único país do continente a ser banhado tanto pelo Oceano Pacífico como pelo mar do Caribe. Bogotá possui pontos de referência da era colonial, como a sala de espetáculos de estilo neoclássico, Teatro Colón, e a Igreja de São Francisco, do século XVII. Alberga também museus populares, incluindo o Museu Botero, que exibe arte de Fernando Botero, e o Museu do Oro, que exibe peças em ouro pré-colombianas.

Comício de encerramento da campanha do primeiro turno da eleição presidencial na Colômbia na Praça dos Jornalistas, centro de Bogo

Encontro esperado
No mesmo dia da chegada, sempre ciceroneado por Carmenza Rojas Potes, tomo conhecimento da Colômbia e de Bogotá DC (Distrito Capital), a antiga Santafé de Bogotá, nosso vizinho que o Brasil pouco dialoga e vamos ao encontro tão esperado, a casa privada de Francia Márquez. Chegando ao local passo pelo sistema da inteligência e do pessoal que cuida da segurança, pois trata-se da futura Vice Presidenta da República.
Finalmente encontro presencial com uma mulher negra, determinada, temperamento forte, aguerrida, descendente de reis e rainhas africanas, a típica filha de Uambulu N`sena (Bamburucema) e Mutaloombô (Oya e Oxóssi).

Francia Márquez nascida em Suárez, município colombiano localizado no departamento (estado) de Cauca, no sudoeste do país, entre uma montanha atravessada por dois rios, onde seus avôs, suas avós, seus pais e ela própria plantou umbigo, território ancestral onde aprendeu o valor da terra. Suas raízes estão nos passos de centenas de milhares de seres humanos escravizados que deram suas vidas e trabalharam para dar à luz a liberdade para esta nação chamada de Colômbia. Desde muito jovem fez desse legado seu mandato, seus sentimentos e seus pensamentos. Aprendeu com eles que a dignidade não tem preço e que resistir não é duradouro.

Em almoço na capital Quibdó, departamento (estado) de Chocó, região do Pacifico, de população majoritariamente negra, chamada de África colombiana

Foi formada no Processo das Comunidades Negras (PCN) em meio à urgência de defender o território das mãos daqueles que promovem uma política de morte. Se graduou em direito e é advogada pela Universidade de Santiago de Cali por um propósito comum, porque acredita na importância de tecer com os outros, com os outros e no conhecimento de que se coloca a serviço do povo. Como resultado desse processo coletivo, recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos em 2015 e o Prêmio Goldman de Meio Ambiente em 2018. Por impulso do povo, foi candidata à Câmara dos Deputados, presidente do Comitê Nacional do Conselho Nacional para a Paz, Reconciliação e Convivência e candidata presidencial.

Walmir Damasceno (Tata Nkisi Katuvanjesi) recebido por Francia Márquez em sua residência privada em Bogotá

Queremos que a alegria floresça e viva

Francia Márquez

Já estamos escrevendo uma história de mudança não só para a Colômbia, como para toda América Latina, até que a dignidade se torne um hábito!

Líder social
Ela estava ligada muita jovem ao processo comunitário que se opunha ao represamento do rio Ovejas, ao corte do território ancestral do Corregimiento de la Toma em Suárez, Cauca, e seu desvio para a barragem de Salvajina

Representante Legal do Conselho da Comunidade Afrodescendente
Foi Representante Legal do Conselho da Comunidade Afrodescendente de Corregimiento La Toma, por 3 anos, e trabalhou em apoio ao processo de caracterização dos efeitos territoriais no contexto do conflito armado e na formulação da demanda de restituição de bens territoriais e direitos das populações da localidade.

Na defesa do território, colocando sua vida em risco
Em razão da defesa coletiva de seu território no âmbito da outorga de títulos de exploração mineira e de uma ação de tutela que ajuizou para suspendê-los e impedir a desapropriação de sua comunidade, recebeu ameaças de grupos paramilitares que a obrigaram a sair da sua terra junto com seus dois filhos.

Combate à mineração ilegal
Na luta pela defesa de seu território, em 2014 liderou a Marcha “Mulheres Negras pelo Cuidado da Vida e dos Territórios Ancestrais”, conhecida como marcha dos turbantes. Entre suas conquistas está o reconhecimento das reservas do Norte de Cauca para reparação coletiva e a expulsão de retroescavadeiras dedicadas ao garimpo ilegal de seu território.

Processo de paz
No âmbito dos diálogos entre o Governo Nacional e as FARC, atuou a partir do Processo das Comunidades Negras e da Comissão Étnica pela Paz na defesa da participação dos povos étnicos, que resultou no Capítulo Étnico pela Paz.

Advogada da Universidade de Santiago de Cali
Estudou Direito na Universidade de Santiago de Cali e formou-se advogada com a tese “O direito fundamental à consulta prévia e o racismo estrutural na Colômbia. Análise do caso do Conselho Comunitário Toma-Suárez-Cauca”. É também técnica agrícola do Serviço Nacional de Aprendizagem (SENA).

Distinção BBC
Em 2019, ela recebeu o reconhecimento da BBC em Londres como uma das 100 mulheres mais inspiradoras, influentes e inovadoras do mundo durante 2019.

Especialista em Escrita Criativa
É especialista em Escrita Criativa pela Universidade ICESI, onde teceu algumas de suas memórias ancestrais com histórias como “O retorno dos ancestrais” e outras histórias sobre a espiritualidade do povo negro, o cuidado com o território, a vida e a morte.

Eles tentaram em sua vida
Após ser candidata à Câmara das Comunidades Afrodescendentes, continuou sua formação política e defesa do território. Por isso tem recebido ameaças contínuas e ataques de grupos armados.

Luta contra as alterações climáticas
No discurso do Goldman Environmental Prize, um reconhecimento global ao trabalho comunitário de líderes ambientais, ele convidou a humanidade a realizar ações coletivas para deter as mudanças climáticas.
Uma das mulheres mais importantes da década
Ela foi reconhecida pela revista Rolling Stone como uma das 15 mulheres colombianas mais importantes da década.

Diálogos com a academia
Ela manteve um diálogo com Angela Davis, uma voz icônica norte-americana pelos direitos das mulheres negras, que reconheceu seu poder e capacidade de liderar o país e unir esforços para salvar o planeta.

Eu sou porque nós somos
Ela foi lançada como pré-candidata à presidência pelo Pacto Histórico, liderando seu movimento Eu sou porque somos, que se baseia no “governar obedecendo” e no principio do “Ubuntu”, uma filosofia africana que reconhece a conexão entre todos os seres. Esse movimento constrói Mandatos Populares com comunidades, indivíduos e grupos para orientar suas decisões políticas.

Apaixonado por arte, espiritualidade e ancestralidade
Ele gosta de cantar, dançar a fuga, o turbilhão nortecaucano, salsa e ouvir as baladas de Encarnita García de Jesus, conhecida como Kanny García, uma cantora, compositora e filantropista de Porto Rico, cultua a espiritualidade e ancestralidade africana, é filha de Uambulu N`sena (Bamburucema) e Mutaloombô, mera similitude de (Oya e Oxóssi).

A candidata presidencial mais votada e próxima vice presidenta da Colômbia
Foi a terceira pré-candidatura mais votada à presidência de 2022, superando personalidades já reconhecidas, posicionando-se como uma das lideranças políticas mais importantes do país. Ela é a primeira mulher na história colombiana a obter esses resultados e tem o apoio visível de jovens, comunidades diversas, mulheres, negros, prefeitos e crianças.

Hoje, 19 de junho de 2022, um momento histórico para esquerda colombiana, e se confirmou a vontade da maioria da população, Francia Márquez eleita vice presidenta da República junto com o companheiro de chapa a Presidente, Gustavo Petro, um ex-guerrilheiro e ex-prefeito de Bogotá, líder do Pacto Histórico, em uma coalizão de organizações políticas, sociais e comunitárias da qual se buscou reunir a maioria de mulheres e homens na luta por mudanças reais, profundas e autênticas para este país sul americano e caribenho, um apelo à Colômbia, em sua enorme diversidade, empreendendo a luta por um futuro baseado na paz, na justiça social e na democracia, e uma forma de governar, reconhecendo na diversidade (política, étnica, biológica, cultural, entre outras) a verdadeira riqueza através da qual se possa tornar a Colômbia uma potência mundial da vida.

Texto atualizado:
Walmir Damasceno (Tata Nkisi Katuvanjesi), de Cali, uma cidade colombiana no departamento (estado) do Vale de Cauca, a sudoeste de Bogotá, dia 27 de maio de 2022, às 14h30, horário da Colômbia

6 comentários em “Francia Márquez, regida por Uambulu N`Sena (Bamburucema) e Mutaloombô (Oya e Oxóssi), eleita Vice Presidenta da Colômbia”

  1. Eunice Bernardes

    Daqui torcemos para que a alegria floresça e viva! Que força! A América Latina precisa urgentemente de governos progressistas e libertários, que defendam seu povo, sua terra e suas riquezas materiais e imateriais do massacre dos interesses do capital! Força Colômbia!

  2. Patricia Cerqueira dos Santos.

    Que Boniteza, como diria o educador brasileiro Paulo Freire.
    Todas as bençãos para ações de Petro e Márquez na direção da nação.
    Que nos sirva de inspiração para irmos as urnas no Brasil no segundo semestre.
    Aweto!

  3. Gerivaldo Nogueira da Silva

    É por aí, nenhuma democracia na América Latina vai se firmar sem o processo de libertação dos povos dessa região, principalmente os ameríndios e negros, que precisam mais do que nunca serem incluídos como verdadeiros cidadãos da região. A luta ancestral de Francia Marquez, e sua disposição energizada de coragem pela preservação da riqueza ambiental dos territórios, assim como sua luta pela preservação do patrimônio cultural das populações originárias, termina por ser a luta de todos nós. Que esse processo político recém ocorrido na Colômbia floresça em toda América Latina como um março inicial de uma verdadeira democracia, com fome de justiça social.

  4. Mãe Dora de Oyá

    Meu desejo, é que Oyá e Odé, lhe fortaleça cada vez mais, pra que ela faça um grande governo para o seu povo, e inspire nós brasileiras, mulheres de santo a lutar por nosso país, pra que em breve possamos sairmos desse limbo que estamos. Eparrey Oyá, Okê Arô

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.