Em meio às preparações para a festividade de Nkosi, o Inzo Tumbansi recebe a filósofa Sueli Carneiro e o escritor Joaci Pereira Furtado

Em meio às preparações para a festividade de Nkosi, o Inzo Tumbansi recebe a filósofa Sueli Carneiro e o escritor Joaci Pereira Furtado

Em meio às preparações para a festividade de Nkosi, o Inzo Tumbansi recebe a filósofa Sueli Carneiro e o escritor Joaci Pereira Furtado

Almoço tradicional oferecido em 28 de junho para Sueli Carneiro e lançamento de livro sobre Revolta das Carrancas do escritor Joaci Pereira Furtado fazem parte dos festejos e celebração à divindade da guerra.

Desde o dia 15 de junho, o Terreiro de Candomblé Inzo Tumbansi vem se preparando para a realização da homenagem ao nkisi Nkosi. Divindade similar a Ogun, Nkosi é um dos mais reverenciados pelos praticantes do candomblé Kongo angola e sua festa acontecerá no dia 6 de julho, a partir das 17h, nas dependências do Inzo Tumbansi, à Rodovia Armando Salles, 5205, Recreio Campestre em Itapecerica da Serra. Dentre as atividades sagradas que preparam o ritual de Nkosi já foram realizadas a celebração a Kitembu (Tempo) e no dia 22 de junho aconteceu o rito de oferenda do M’bi (bode) de Njila, divindade guardiã da comunidade.

Como parte da programação dos festejos e celebração à Nkosi, Tata Nkisi Katuvanjesi (Walmir Damasceno), reuniu dia 28 de junho, no Inzo Tumbansi expressivas lideranças e pensadores do universo acadêmico em almoço tradicional na recepção e homenagem a Sueli Carneiro, filha d`Ògún, filósofa, escritora e ativista antirracista do movimento social negro brasileiro. Sueli Carneiro é fundadora do Geledés — Instituto da Mulher Negra e considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil. Ao saudar a presença de Sueli Carneiro no Inzo Tumbansi, era visível a emoção e felicidade de Tata Katuvanjesi por estar recebendo uma das figuras mais destacadas na luta antirracista. “Saudações ancestrais e tradicionais a todos e todas as pessoas aqui presentes. É uma honra receber mais uma vez Sueli aqui nessa casa. O terreiro está feliz”, disse Taata Katuvanjesi ao saudar Sueli Carneiro.

“Eu fico muito feliz de o senhor também ter aceitado o convite e vir fazer o lançamento de sua obra aqui neste terreiro, em referência a presença do escritor Joaci Pereira Furtado, que lançou sua obra literária A Revolta de Carrancas, Isso faz parte da união das academias – academias até de etnicidade, porque o senhor já lançou lá no Axé de Oxóssi, do venerável baba Rodney William, que é de feição Yorùbá, e veio aqui lançar no Inzo Tumbansi, que é de feição bantu. Então, estamos todos no mesmo navio. A luta é necessária porque estamos muito preocupados como as coisas estão girando em torno de nós e no mundo”, diz Taata Katuvanjesi ao professor e escritor Joaci Pereira Furtado. Taata Katuvanjesi aproveita a oportunidade para expressar sua preocupação com os rumos da política mundial que interferem diretamente na vida das pessoas e ameaçam a existência de comunidades tradicionais ao redor do mundo.

“Essa extrema direita tomando e assumindo posições. E assumindo posições de nos matar mesmo, então a gente tem que aproveitar esses momentos para fazer a reflexão do que está acontecendo no mundo e, por consequência, aqui no nosso país. E o perigo está se aproximando a cada dia. Portanto, temos que repensar o nosso papel de luta para poder enfrentar essa situação que pode se tornar uma tragédia”, explica Tata Nkisi Katuvanjesi. Em seguida, Sueli Carneiro, fala de sua felicidade em estar no território sagrado do Inzo Tumbansi, onde seu Exu está assentado. “Não é nenhuma novidade eu estar aqui. Eu demorei muito para voltar, mas eu sempre estive aqui, que também é minha casa. Sou feita no Ketu, sou de Ògún, ekedi de Iansã, mas meu Exu está aqui. Vocês sabem muito bem o que isso significa. Confio nesse Inzo e sei que meu Exu está cuidado, mantido, acolhido e que muito das coisas boas que me acontecem também devo ao trato que esse Exu recebe, que me garante em muitas situações aí da rua”, diz Sueli Carneiro.

Sobre a importância de se louvar Nkosi, Sueli Carneiro fala da importância da divindade na organização da luta negra no Brasil. “Ògún (Nkosi) é muito celebrado aqui, porque são tempos difíceis, nós estamos em guerra. Nós negros, sobretudo, estamos em guerra nesse país, como sempre estivemos, mas as coisas estão se radicalizando contra nós. E invoco Ògún para lutar nessas horas, até porque não é ele que vai, somos nós mesmos (risos). E é por isso que a casa tem essa presença tão forte dos filhos e filhas de Ògún, desse Nguzu (axé) tão forte, porque aqui é um espaço de luta, de resistência, e a gente precisa dessa energia pra aguentar o tranco e o que virá”, fala a emocionada filósofa.

Avessa aos louros que jogam sobre ela, Sueli Carneiro diz não ligar para os títulos apesar de saber se sua importância na carreira de uma mulher negra. Mas salienta que não são seus títulos que a define. “Eu vi lá fora: ‘professora, doutora, não sei mais o quê’, mas você [Taata] sabe que eu não estou nem aí com esses títulos, com nada disso, não é essa a ideia. Aqui nós somos gente de raiz, gente de luta, gente de compromisso e gente de coragem. Nesse sentido, nós estamos prontos e prontas para o que der e vier, e eu sou extremamente grata por ser reacolhida nesta casa. Mas, nós somos aqui sobreviventes, resistentes, resilientes e estou convocando essa bela nova geração a seguir com a gente, a assumir o bastão, porque a luta continua e a gente é forte e corajoso. Então, muito obrigada”. E se Nkosi é a divindade da luta, o livro Revolta de Carrancas, do professor e escritor Joaci Pereira Furtado, traz mais subsídios para as palavras de Taata Katuvanjesi e Sueli Carneiro: é preciso estar preparado para a guerra. A Revolta de Carrancas, a maior rebelião escrava do sudeste do Brasil foi a expressão mais contundente da estratégia contra a escravidão praticada por escravizados.

A obra tira do silêncio a história do 13 de maio de 1833 quando mais de 100 escravizados, organizados, executam um plano ousado: matar a família Junqueira, poderosa família do sul de Minas Gerais. O silenciamento sobre a Revolta de Carrancas é tema do livro de Joaci Pereira Furtado, que nos mostra a fúria do estado brasileiro para punir exemplarmente quem ousou se levantar contra a escravidão. As instituições escravistas não mediram esforços para apagar os registros da revolta. Convidar Joaci Furtado para apresentar sua pesquisa no terreiro o Inzo Tumbansi dá oportunidade à toda comunidade de conhecer este capítulo da história de resistência do povo negro, que certamente é fonte de inspiração para outras lutas atuais.

No domingo, dia 29 de junho, Tata Katuvanjesi deu continuidade à celebração com oferta do Mbi (Bode) à Nkosi (Ògún) e demais atividades internas do Inzo Tumbansi a fim de aguardar o ponto alto da cerimônia está previsto para ocorrer a partir das 17h00 do dia 6 de julho ocasião em que Tata Katuvanjesi reúne líderes dos mais variados seguimentos do candomblé. O evento tem presença confirmada, entre outras personalidades, da coordenadora do Núcleo de Religiões da Polícia Militar do Estado da Bahia, ekedi capitã Thais Trindade d`Ògún e capitã Elma Pimentel, coordenadora do Centro de Valorização da Mulher Maria Felipa, da PM/Ba.

O Que? Cerimônia Festiva e Tradicional à Nkosi (Ògún)

Data: 06 de julho de 2024

Horário? a partir das 17h
Onde? Inzo Tumbansi – Comunidade Tradicional de Terreiro Kongo Angola
Local? Rodovia Armando Salles, 5205 – Recreio Campestre – Itapecerica da Serra(SP)
Maiores informações: WhatsApp (11) 11993391977 – (11) 4165-4333

Ascom: Assessoria de Comunicação Social do Inzo Tumbansi – ILABANTU

Texto: Makota Tembwa dya Nkulu – Eliane de Souza Almeida, de Uambulun`sena(Bamburucena), doutoranda em Mudança Social e Participação Política pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH/USP), Mestre em Processos Comunicacionais pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), São Bernardo do Campo (2005) e Graduada em Jornalismo pelo Centro Universitário Monte Serrat – UNIMONTE, de Santos (2001).