Tradição X Tempos Modernos

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O candomblé de congo-angola na forma como o praticamos hoje é um legado criado e mantido durante alguns anos por africanos escravizados e seus descendentes, historicamente registrado, na cidade de Salvador e recôncavo baiano. Segundo Edison Carneiro, que escreveu sobre o candomblé da Bahia nos anos 30 do século XX, há indícios de que já nos anos 50 do século XIX havia candomblés tocados por angolanos, que ele Edison Carneiro, chama de candomblés de caboclo.

De acordo com a história oral ainda muito presente entre segmentos do povo-de-santo angoleiro, duas figuras estão presentes nessa memória, que são Manuel Nkosi, congolês, iniciador de Manuel Bernardino e Roberto Barros Reis, angolano de Cambinda, iniciador de Maria Genoveva do Bonfim. Sobre Manuel Nkossi sabe-se muito pouco, e sobre Roberto Barros Reis, sabe-se que foi o fundador de uma casa de santo, de nome Nzo Tumbenci, herdada por Maria Genoveva do Bonfim, quando este veio a falecer.

Na Bahia do século XIX os negros, de qualquer etnia, não gozavam de liberdade, mesmo após o acontecimento da abolição, mas criaram notáveis estratégias de sobrevivência, apesar dos rigores da lei do branco, que proibia quase todas as manifestações de sobrevivência africana. Além disso, era forte a rivalidade entre os vários grupos étnicos presentes na cidade e arredores. Sabemos disso, porque, as festas de que participavam, e eram toleradas pelo poder dominante, eram feitas em separado, assim como seus cantos de trabalho, de alguns homens e mulheres livres, eram separados. Também as irmandades católicas de que faziam parte, eram destinadas a grupos específicos, sendo que nagôs, jejes e angolas compunham irmandades diversas e jamais se misturavam nessa devoção.

Nesse clima de desconfiança mútua, os nagôs sempre foram os mais soberbos e se consideravam superiores aos demais negros, é que surgiu a duras penas o candomblé como forma religiosa organizada. Esse é um estudo que ainda está para ser feito, mas a respeito do candomblé de nação Ketu já existem estudos, sobre a fundação do candomblé da barroquinha, assim como o candomblé de rito jeje já tem também um ótimo estudo sobre sua formação. O Candomblé de congo-angola espera que esses estudos venham a ser feitos, para que possamos compreender historicamente como o processo aconteceu. O que temos hoje sobre o candomblé congo-angola é apenas a história oral mantida pela tradição das casas de santo, que obviamente tem seu inestimável valor, mas que carece de uma fundamentação teórica, complementada pela documentação que se espera existir.
Quanto a tese de que os candomblés surgiram a partir de uma acordo entre as partes, não existe nenhum documento que comprove tal tese espatafúrdia…deve ser coisa da imaginação de alguns.

Os africanos, chamados na época de nagôs, e que agora são chamados de ketu, criaram estruturas rituais e de comportamento de acordo com suas origens, recriando no Brasil formas que dessem conta do culto aos orixás, tal como faziam nas antigas cidades do mundo iorubano. Os jejes também re-criaram aqui modelos que obedeciam suas formas de culto do reino do Daomé. Alias, eles só podiam fazer isso, porque era a única forma religiosa que conheciam, além do catolicismo imposto pelos senhores. Sendo assim, acreditamos que os angolas e congos só podiam reproduzir aqui, o que traziam de suas terras de origem, tal como acontecia nos Calundus presentes em todo o correr dos séculos no Brasil colônia. Não podiam os angolas e congos reproduzirem ritos de nações com os quais eles, em África, não tinham tido nenhum contato.

Portanto, o candomblé nasceu étnico. Cada grupo étnico mantinha seus cultos de acordo com sua procedência. Martiniano do Bonfim nos informa que os angolas tocavam seus tambores entre as pernas, o que era um diferencial das demais nações. Esse é apenas um dado sem maior relevância, mas que demonstra que cada nação praticava aquilo que sabia, trazido de suas terras de origem.

Um outro dado importante é que naqueles tempos o candomblé não gozava de liberdade religiosa. Pelo contrário, era perseguido, seus seguidores e sacerdotes eram presos, torturados, humilhados, pelo simples fato de estarem praticando sua fé. Por isso, tudo era feito em segredo absoluto, porque uma simples denúncia acarretava grandes prejuízos e transtorno aos seus participantes. A lei do segredo era a lei maior. O conhecimento apenas podia circular entre os participantes, porque qualquer vazamento de informação seria usado contra eles próprios.

Era necessária uma absoluta obediência em relação aos sacerdotes e pessoas graduadas do culto. E, além disso, os tempos eram de mandar e obedecer, porque eram pessoas recém-saídas de um regime escravocrata, regime esse que imperava a partir da violência física e moral. Eram tempos duros, repressivos e irrespirável em termos modernos. Mas era assim que funcionava. O segredo total e absoluto, a obediência cega e completa. Não se questionava uma ordem, porque questionar era perigoso. Ou se aceitava as regras do jogo ou poderia perecer fora do grupo, o que significava quase que a não sobrevivência étnica do sujeito.

Mas os tempos mudaram. E uma das formas religiosas se sobrepôs as demais. O candomblé de ketu, chamado na época de candomblé nagô, conheceu um esplendor não partilhado pelas demais nações, tanto em relação a si mesmo, quanto em relação ao público leigo, chegando a seu auge de popularidade com uma Yalorixá muito competente, Mãe Menininha do Gantois.

E agora, em plena pós-modernidade, como se encontra o candomblé de congo-angola, que para sobreviver no mercado religioso, obrigou-se a agregar elementos de outras nações, perdendo parte da sua ritualística original ? Durante muito tempo, angoleiros seguiram a risca o modelo do culto aos orixás, e os mais recentes acreditam piamente que é assim mesmo, que originalmente o culto foi implantado assim, e que fazer diferente é trair a tradição e a confiança dos mais-velhos. Nossa religião baseia-se nos ensinamentos orais, até porque nossos ancestrais fundadores eram analfabetos em língua portuguesa e não deixaram nada escrito, e mesmo que pudessem não o fariam, porque as provas escritas seriam usadas contra eles nos momentos de perseguição policial. Tudo que chegou até nós é oral, ancorado na tradição do mais-velho.

Entretanto, novas gerações de angoleiros, que tiveram oportunidade de ir à escola, tomaram contato com outras realidades e começaram a questionar certos elementos do nosso culto. Se eramos de origem banto, porque usávamos a língua iorubana, porque falávamos em orixás, porque nossos rituais eram tão parecidos com os rituais de ketu entre outras indagações, indagações essas que necessitavam de respostas claras objetivas e diretas, para uma geração que não mais se conforma com a célebre frase: aprendi assim e continuo fazendo assim. Eles querem respostas, querem continuar sendo angoleiros, mas que seus sacerdotes respondam suas questões mínimas, que não são de fundo sagrado mas de fundo cultural.

Indagam sobre nossas origens, sobre nossa fundação, sobre a natureza de nossas divindades, sobre as origens de nossos rituais, querem entender o teor das cantigas e rezas. Não questionam o lado sagrado da religião e sim os dados culturais que compõe essa religião. E há também um grupo de sacerdotes interessados em respostas claras, objetivas e concretas.

De outro lado, encontram-se os tradicionalistas, que se colocam como donos do saber religioso. Não admitem indagações, porque muitas vezes, não tem a resposta. E como no candomblé, saber é poder, admitir que não sabe, é perder parte do poder que acreditam possuir. Não se trata, a busca por respostas, da criação de um movimento religioso tipo neo-pentecostalismo, mas sim de buscar entendimento das práticas que usamos. A contraposição a essa busca não é filosófica e sim política. Os detentores do poder, ou que acreditam que são, estão em polvorosa e raivosos porque sentem que o tempo é outro e que a antiga massa de manobra está ficando bem informada, e que não se deixará mais levar por respostas evasivas.

Com isso, eles perdem seu lugarzinho ao sol, que sempre mantiveram em nome de uma tradição cultivada por eles, mas que não tem nenhuma substância à luz da verdade. E perder o seu lugar ao sol significa perder dinheiro e prestígio construídos à sombra do suposto saber tradicional. E esse  prestígio é medido em cifrões com somas astronômicas por uma obrigação, só permitido aos aquinhoados, porque o povo de salário mínimo, que constitui a maioria, esses que se arranjem pelos becos, porque a tradição exige um bom capital e quem não tem não merece pertencer à casa tão tradicional. E em meio a tanta tradição e seriedade as moedas tilintam e os cifrões dançam embalados na verdadeira tradição de casas tão veneráveis, ao som de melodias que só eles conhecem, e que foram trazidas nos tempos remotos pelas deidades, que os escolheram como eleitos para guardar as verdadeiras tradições do povo bantu.

No entanto, os neo-candomblecistas, assim chamados pejorativamente pelos supostos tradicionalistas, só estão querendo compreender a religião que praticam, entender a língua ritual, saber dos nossos ritos em África bantu e perceber o quanto nossos antepassados fizeram preservando rituais e ensinamentos, mas jamais formar uma nova religião, até porque estão muito satisfeitos com a que têm. Seu interesse é apenas contribuir com novas pesquisas na área cultural e oferecer ao povo-de-santo angoleiro novos dados, que não ferem a tradição, pelo contrário a solidifica, para pensarmos juntos os rumos do candomblé de Congo-Angola nesses novos tempos. A intenção é de  somar, jamais dividir. O Inzo Ia Tumbansi, de Itapecerica da Serra-Sp. está e estará sempre aberto ao diálogo e pronto a contribuir com os demais, pronto a receber contribuições que sirvam para o engrandecimento do candomblé de congo-angola.

Os tradicionalistas, acostumados e encastelados em suas próprias casas, arrogando-se o direito de serem únicos e detentores da verdade, estão um pouco aturdidos. Mas isso vai passar, assim que eles perceberem que a verdade não é única. São muitas as verdades, e que o saber quanto mais socializado mais sagrado se torna. Porque para os bantu a palavra é nguzu e, nguzu não pode ficar retido, tem que ser distribuído, porque quanto mais circular, maior força adquire.

Prof.Dr. Sérgio Paulo Adolfo, Universidade Estadual de Londrina.
Tata Kiundundulu, é tata Kisaba do Inzo Ia Tumbansi, Itapecerica da Serra-SP.

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